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Crônicas: veredas históricas e literárias

            Na escola, quando pensava em literatura, instantaneamente já me vinha a cabeça aqueles obras “chatas”, cheia de palavras complicadas e o que mais me perturbava em todo esse processo era a “obrigação“ de ter que ler esses autores clássicos e deixar de lado uma literatura que fazia mais meu gênero, para saber do tal Primo Basílio, Policarpo Quaresma e afins. Machado de Assis era um palavrão. Não mensurava naquele momento sua importância. que me faltava, e só fui perceber na graduação era entender. Não entender as palavras, porque para isso contava com o dicionário, mas sim a conjuntura e  não pensar como um contemporâneo, olhar de uma maneira nova e perceber as nuances que estavam por trás daqueles textos.

            O projeto que dá título a este artigo foi desenvolvido na faculdade e abarcou algumas crônicas históricas com o intuito de ajudar os alunos a entender toda a conjuntura e perceber que um texto de literatura poderia conversar com outras disciplinas e propiciar uma gama muito grande de perspectivas a respeito da história. Assim, desenvolver um novo olhar. 

            Para isso dar um exemplo da maneira como esse trabalho foi desenvolvido, optei por trazer o trecho de uma crônica de Machado de Assis, que fora publicada no jornal A Semana, em 1893. Nela, Machado noticia a morte do livreiro Garnier na cidade do Rio de Janeiro. Parece simples, uma crônica que noticia um fato, mas quando analisamos com detalhes, podemos perceber que existe nesse texto muito mais informações que a mensagem de falecimento de um importante personagem do Rio de Janeiro.

     1893

Garnier

8 de outubro

       Segunda-feira d’esta semana, o livreiro Garnier sahiu pela primeira vez de casa par ir a outra parte que não a livraria. Revertere ad locum tuum – está escripto no alto da porta do cemiterio de São João Baptista. “Não, - murmurou elle talvez dentro do caixão mortuario, quando percebeu para onde o iam conduzindo, - não é este o meu logar; o meu logar é na rua do Ouvidor 71, ao pé de uma carteira de trabalho, ao fundo, á esquerda; é alli que estão os meus livros, a minha correspondencia, as minhas notas, toda a minha escripturação.

Durante meio seculo, Garnier não fez outra cousa senão estar alli n’aquelle mesmo logar, trabalhando. Já enfermo desde alguns annos, com a morte no peito, descia todos os dias de Santa Thereza para a loja, de onde regressava antes de cahir a noite. Uma tarde, ao encontral-o na rua, quando se recolhia, andando vagaroso, com os seus pés direitos, mettido em um sobretudo, perguntei-lhe porque não descançava algum tempo. Respondeu-me com outra pergunta: Pourriez-vous résister, si vous étiez forcé de neplus faire ce que vous auriez fait pendant cinquante ans? Na vespera da morte, se estou bem informado, achando-se de pé, ainda planejou descer na manhan seguinte, para dar uma vista de olhos á livraria.”(...) [1]

 

 

A princípio, como dito anteriormente, esse trecho inicial da crônica parece descrever um pouco da rotina desse livreiro e que esse, agora não mais iria passar horas em sua livraria pois havia morrido. Quando analisamos cada fragmento que compõem esse trabalho, começamos a perceber que esse pequeno trecho pode nos revelar informações relevantes sobre como era se viver no Rio de Janeiro no final do século XIX.

Para isso, o texto foi dividido por palavras chaves, formando uma espécie de glossário histórico. Abaixo, podemos observar alguns trechos dessas palavras chaves:

1893:  

“O ano de 1893, ano da morte do livreiro-editor Batiste Louis Garnier, que é o tema desta crônica de Machado de Assis, destacou-se na história nacional em virtude de graves perturbações políticas. Nele ocorrem, a partir de 5 de setembro, a Revolta da Armada, a Revolução Federalista, e a dura repressão levada a cabo pelo então Presidente da República, Marechal Floriano Peixoto, contra seus opositores, civis e militares. Também naquele mesmo ano deu-se o primeiro embate entre Antônio Conselheiro e seus seguidores. Machado se refere a Conselheiro, sem nomeá-lo, como um “fanático”. A sua revolta não atribuiu outro motivo que a recusa ao pagamento de certos impostos. (...)”

(PEDRO QUEIROZ LEITE)

 

 

Garnier:

“Quanto ao próprio Garnier, não foi esta a primeira vez em que Machado de Assis se referiu ao livreiro-editor. Em crônica publicada no Diário do Rio de Janeiro, em 3 de janeiro de 1865, o escritor assim se refere àquela casa editorial e seu proprietário:

“Melhorando de dia para dia, as edições da casa Garnier são hoje as melhores que aparecem entre nós.

Não deixarei de recomendar aos leitores fluminenses a publicação mensal da mesma casa, o Jornal das Famílias, verdadeiro jornal para senhoras, pela escolha do gênero de escritos originais que publica e pelas novidades de modas, músicas, desenhos, bordados, esses mil nadas tão necessários ao reino do bom tom.

O Jornal das Famílias é uma das primeiras publicações desse gênero que temos tido; o círculo de seus leitores vai se alargando cada vez mais, graças à inteligente direção do Sr. Garnier”[2]

           E por ocasião da morte de Garnier, além desta crônica sobre a qual ora nos debruçamos, publicou ele também uma outra, no Jornal do Commercio, no dia 7 de outubro do mesmo ano — ou seja, na véspera da que foi publicada na Gazeta de Notícia —, em que ao lado de algumas considerações sobre o livreiro, comenta a sua política de preços:

“Quanto ao preço que estabelecia para as suas edições, era sempre permanente: qualquer que fosse a aceitação do livro, não o alterava nunca, nem mesmo com a baixa do câmbio para os impressos na Europa.

Conversando com elle uma vez a respeito de um livro que acabava de publicar, e que se lastimava da pouca aceitação que tivera, perguntamos-lhe porque não havia taxado por preço mais módico.

— É um engano seu, atalhou-nos, há livros qualquer que seja o preço que, sendo bem aceitos, não podem ter mais de 300 a 400 compradores e outros até menos, dos popularessim, pode-se vender no primeiro anno 600 a 800: conheço bem o mercado do Brazil”. [3]

“(...)

 (PEDRO QUEIROZ LEITE)

 

Revertere ad locum tuum:

         Machado aqui se refere à inscrição que se encontra no pórtico do Cemitério de São João Batista, do Rio de Janeiro.

A expressão latina Revertere ad locum tuum, significa, literalmente, “retorna ao teu lugar” ou ainda “retorna ao lugar de onde vieste”. Ela inclusive aparece na Bíblia, no Antigo Testamento, em Números 24:11, numa passagem que diz expressamente isto: trata-se do episódio em que Balac expulsa Balaão de junto de si, ordenando que volte para a terra de onde veio.” (...)

 

Cemitério São João Batista:

“O Cemitério São João Batista é, atualmente, administrado pela municipalidade do  Rio de Janeiro, e localiza-se no bairro de Botafogo, na zona Sul. Sua criação deve-se em razão de um decreto de 1851, que autorizava a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro a administrar os cemitérios da cidade já existentes, e a criar outros, conforme a necessidade. Sua inauguração deu-se em 4 de dezembro de 1852.“

 

Rua do Ouvidor:

A Rua do Ouvidor é considerada talvez o logradouro mais importante da cidade do Rio de Janeiro, cujo nome origina-se do fato de nela ter se fixado a residência dos ouvidores.  Existindo desde 1578, quando era conhecida como Desvio do Mar,  é uma das mais antigas ruas do Rio de Janeiro e, durante os anos, recebera diversos nomes. Foi conhecida por muito tempo como Rua do Aleixo Manuel, cidadão que ainda no século XVI foi um de seus primeiros moradores. Chamou-se rua da Cruz, quando erigida a Igreja da Cruz dos Militares. Foi depois conhecida como Rua do Padre Homem da Costa, quando foi alinhada em 1650.

Segundo Vivaldo Coaracy, em 1745 a Fazenda Real:  

 

“(...) adquiriu as casas que haviam sido de certo José de Andrade para residência dos Ouvidores. O primeiro magistrado desta categoria  a nelas morar foi Manuel Pena de Mesquita, o segundo, mais conhecido, Francisco Berquó da Silva Pereira , desde então ficou conhecida como rua do ouvidor”[4]

“(...)

 

Carteira de Trabalho:

 

“Antigo móvel, geralmente elevado, utilizado para pesquisa, leitura, escrita e escrituração, existente em muitas casas comerciais, bibliotecas e instituições de ensino.”

 

Morro de Santa Teresa:

 

“A ocupação do local onde hoje se encontra o bairro de Santa Teresa tem seu início com a construção de uma pequena capela dedicada à Nossa Senhora do Desterro, em 1624, por iniciativa de Antônio Gomes do Desterro — e, por este motivo, ficou o morro conhecido, durante muitos anos, como Morro do Desterro[5].

      A partir de 1750 tem início a construção do convento de Santa Teresa, em invocação da mística espanhola e reformadora da Ordem, Santa Teresa de Ávila (1515-1582), e que foi a sede do primeiro Carmelo Descalço feminino no Brasil. E em 1757, com a transferência das freiras para aquela edificação, mudou-se o nome do morro: deixou de chamar Morro do Desterro para ser de Santa Teresa.”(...)[6]

 

 

Antes de cahir a noite:

“No século XIX, o sistema de iluminação pública no Rio de Janeiro foi alvo de intensa modernização. Novas formas de “iluminar” foram propostas e gradativamente utilizadas, proporcionando uma melhoria significativa na vida dos cidadãos cariocas. Ainda que as mesmas possam parecer aos nossos olhos, hoje, relativamente incipientes, isto se altera se lembrarmos que a rotina noturna de então era completamente diferente da atual.

         Muito sinteticamente, podemos dividir a iluminação pública do Rio de Janeiro em cinco grandes períodos – a iluminação a azeite de peixe, a iluminação a gás (hidrogênio carbonato), a iluminação por gás Globe (óleo de nafta), iluminação por gás corrente (gás de carvão) e a iluminação elétrica. O desenvolvimento desses processos de iluminação não aboliu instantaneamente o anterior, sendo que por muito tempo a iluminação a óleo de peixe teve seu lugar no subúrbio da capital.” (...)

 

Vestido:

“A partir de 1808, com a abertura dos portos, ocorre uma aproximação entre Brasil e Europa no plano comercial e cultural. Por volta de 1830 é visível a abertura de lojas de moda - por franceses – no Rio de Janeiro, que favoreceram as mudanças de hábitos das classes dirigentes. Assim, paletós “redingote”, camisas e tecidos como lã e algodão, eram comumente importados. Desse modo, tornou-se banal para o indivíduo - no tempo de Machado de Assis – o uso de vestimentas européias, muitas vezes desconfortáveis (como o sobretudo, o casaco e colete em casimira de lã sobre a camisa) concebidas para um clima distinto do Brasil. Vinculada à aparência, a moda passa a ser identificada como meio legitimador do sucesso na nova sociedade. Os rapazes de melhor posição usavam costeletas suíças, casacos de sêda, calças e coletes brancos, camisas de puffs, cartola, gravatas de longas tiras enroladas no pescoço e sapatos de orelha.” (...)

(CARLA FRAY)

 

Pourriez-vous résister, si vous étiez forcé de neplus faire ce que vous auriez fait pendant cinquante ans?:

 

"Poderias tu resistir, se fosses forçado a não fazer mais aquilo que vens fazendo há  cinqüenta anos?"

 

            Como a crônica e todos os termos do glossário perfazem um grande material, optei pode apresentar apenas alguns trechos.

            A Literatura pode ser para a História uma fonte extensa de perspectivas, possibilitando a revisão de visões existentes sobre determinados fatos e com a contribuição da História, proporcionar uma melhor leitura e transformar aquela repulsa que permeou minha jornada como aluno do ensino médio em uma leitura agradável e rica em conhecimento. 


[1] ASSIS, Machado de. “Garnier”. In: A Semana 1 vol., Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc., 1944, p. 401-406.

[2] MACHADO DE ASSIS. Obras completas: Crônicas. 2º Volume. Diário do Rio de Janeiro (1864-1867). Rio de Janeiro; São Paulo: Livro do Mês, 1962. p. 264-5.

[3] PINHEIRO, Alexandra Santos .Baptiste Louis Garnier : O Homem e o Empresário. (Unicamp-SP / Unioeste-PR). I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial. 8 a 11 de novembro de 2004. Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro. www.livroehistoriaeditorial.pro.br/pdf/alexandrasantospinheiro.pdf

[4] Coaracy, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Vol. 3, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1965 p.175

[5] http://jwg.student.utwente.nl/riodejaneiro/br/rio/historia-xvii.htm

[6] CZAJKOWSKI, Jorge (org.). Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Casa da Palavra: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. 2000, p. 83.


22/12/2009, às 11:00:42     ( 0 ) comentário [ link ]    [ envie esta postagem ]
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